sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Passeio de ônibus

Av. Brasil nos anos 60, por Tibor Jablonsky

A cidade é viva! Ela pulsa vibrante e crescente para cima, para baixo e para todos os lados desse ilusório esquema tridimensional que arrancamos diariamente do mundo das idéias desde quando passamos a caminhar eretos. Nesse picadeiro, eu sou um mero e insignificante observador do magnífico espetáculo da metamorfose da metrópole que muda na velocidade da luz bem diante dos meus olhos. Mas, como diria Stephen Hawking, poucos são os humanos que prestam atenção nos fenômenos que nos cercam e aventam porquês e equações para tentar compreendê-los ou descrevê-los. A imensa maioria de nós simplesmente nasce, cresce, se rerpoduz e perece sem escrever um único livro - risos -, não porque não teríamos o que dizer ou como dizer, mas sim, porque não damos a mínima para isso, ou porque não temos tempo para tal, pois, simplesmente vivemos. Isso já é cansativo demais e nos basta.

Falando em viver, somos tão extraordinariamente bons em conter a entropia - construir e manter as coisas -, que realmente pensamos que fazemos isso para viver, quando, na verdade, vivemos para fazer isso! Você acha que não? Então olhe só para um cupinzeiro e tente observar o seu funcionamento e a sua organização. Agora, pegue um graveto e faça um pequeno buraco na sua parede. Logo você vai contemplar o milagre da organização social acontecendo bem diante dos seus olhos. Os soldados virão para combater o seu graveto, as babás salvarão rapidamente as larvas e os construtores, por sua vez, fecharão, mais que rapidamente, o buraco aberto por você. Esses cupins são exatamente como nós. Têm hierarquia bem estruturada e encargos muito bem definidos. Mas, e quanto à pobre Rainha? De que adianta ter uma vida tão longeva - cerca de 30 anos - se ela nem ao menos pode se locomover? Ela coloca milhares de ovos diariamente para sobreviver, ou sobrevive para fazer isso?

Quando eu ando de ônibus e refaço alguns percursos que costumava fazer antigamente, percebo, pelas mudanças e melhorias na cidade, essa incansável luta pela sobrevivência expressa no direito de ir e vir das pessoas e dos carros através das ruas, dos viadutos e das pontes.

Nosso mundo artificial é mutante e, portanto, adaptável - como o cupinzeiro é -. No entanto, por vezes uma enchente ou um furacão aparece para nos lembrar que não controlamos esse nosso complexo sistema que, na verdade, é totalmente regido pelo acaso - se preferir, pelo Graveto, ou por Deus! -. Porém, como até mesmo no caos encontramos alguma ordem, as previsões acontecem, mas, nem sempre adiantam para muita coisa.

Por isso, para mim, é muito melhor lidar com o passado. Apesar de ser nostálgico e, até mesmo, triste em alguns casos, encontro certo conforto nos tempos idos e nos espaços passados. Nas fotos e na memória esses estão aprisionados e me pareciam bem mais controláveis, deve ser porque já se foram. Daí aquela famigerada sensação de que antigamente - no meu tempo e no meu espaço - as coisas eram bem melhores.

Durante a minha viagem de ônibus pelo presente, na forma como ele se apresenta, ou seja, neste tempo e neste espaço, assusto-me um bocado. Não confio na firmeza de todas pontes e passarelas de outrora - na Av. Brasil algumas até caem mesmo! -, nem na precisão de todas as pastilhas de freio que estão a frear por aí.

Contemplo a transformação das minhas cidades e não sei o quanto, ou até quando participo dela, se é que participo efetivamente. Contudo, o que me deixa deveras melancólico é o fato de que estou lentamente sendo esquecido na obsolescência de um simples e retrógrado cupim operário que insiste em viver num tempo e num espaço passado.

Melhor a motocicleta. Pois, ela me impede de observar o percurso. Amanhã vou retirá-la da oficina.


Marlon M4

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