domingo, 11 de dezembro de 2011

O pior cego é o que pensa que vê!




Minha filha (e toda a sua geração) sempre usou uma expressão que gosto muito: fulano “se acha”! Agora ela introduziu uma outra, mais precisa ainda, para designar a arrogância daqueles que se acham donos do mundo e da verdade: o tal fulano não “se acha” mais, ele agora “se tem certeza”!!!!! Quem “se tem certeza” não aprende nada. E enxerga menos ainda. O pior cego é o que pensa que vê!!!!


Quase todos nós temos a sensação de que estamos vendo tudo. Muitos, para não correr o risco de ficar por fora, estão 24h ligados no Twitter, Facebook, Internet... Alguns têm dois ou três celulares, outros dormem com ele debaixo do travesseiro! Como diria Francisco Varela, nossa realidade sensorial nos parece 100% completa, sem nada faltando. Se outra pessoa vê outra coisa, isto é sinal evidente de que ela está errada, de que ela está vivendo em outro mundo, irreal e imaginário. O “nosso” mundo é que é “real”!

O que vemos no nosso mundo quando vamos contratar um funcionário? Seu currículo e a maneira como ele se comportou durante a entrevista. O que vejo quando vou dar uma nota para uma aluna? O que ela escreveu na prova. O que vemos quando olhamos para uma mulher ou para nosso namorado?

Se repararmos bem, em todos os casos, o outro nos parece 100% como a identidade que foi construída pela relação conosco. Um pai vê sua filha na mulher que está sendo contratada pelo homem que a vê como uma profissional, que estuda na sala com uma amiga que a vê como a amiga que minutos antes era vista como aluna pelo professor! Aí está, talvez, nossa primeira cegueira: não enxergamos a pessoa, apenas uma faceta (imaginária) que construímos na relação com ela. Devíamos sempre nos lembrar que nossa relação não contempla tudo o que ela efetivamente é.

Mas afinal, quem é “o outro”?

“O mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas.” Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas

Além de confundirmos o outro com o pedaço da identidade que apareceu em sua relação conosco, temos um outro ponto cego: quem somos nós, e quem é, efetivamente, o outro? A aluna, a filha, a profissional, a mulher? Tudo isto junto? Esta cegueira sobre quem somos “de verdade” é mais complicada que a primeira.

Há dois anos, desde que vi um vídeo e li o livro The element, do Ken Robinson, pergunto para meus alunos quais são seus talentos e suas paixões. Muitos simplesmente não sabem ou não conseguem responder... Boa parte das pessoas ainda passa a vida odiando o que faz, esperando apenas pelo final de semana. Não sabem quem são ou não conseguem viver o que realmente são ou querem ser. E aí não conseguem dizer nada sobre suas paixões e talentos.

Bom, em primeiro lugar nunca “somos” alguém. Como disse Guimarães Rosa, nunca estamos terminados, estamos sempre em construção... Mas Ken Robinson nos alerta que sem ter clareza de nosso “elemento-chave”, dificilmente conseguiremos seguir adiante na vida. Para ele, a junção do que se faz bem (talento), com o que se ama fazer (paixão) é o elemento-chave no nosso processo de transformação permanente. E esta clareza sobre quem queremos ser, só nós podemos ter.

E dai?

“O mundo se divide em duas categorias de pessoas: aquelas que dividem o mundo em duas categorias e aquelas que não.” Ken Robinson

Um dos motivos do porque me parece absurdo que os seres humanos sejam classificados em “raças” ou “categorias” é exatamente o fato de que: i) não somos apenas negros ou brancos ou pardos ou homens ou mulheres ou matemáticos ou professores ou engenheiros... Somos muitos num só; e ii) o outro, e nós, somos seres em permanente transformação.

“Ninguém transforma ninguém. Ninguém se transforma sozinho. Nos transformamos no encontro” Paulo Freire

E é por estes motivos que algumas relações são tão transformadoras. Quando um profissional se sente valorizado, integrado e ligado no que está fazendo ou quando uma mulher realmente se sente viva, inteira e desejada numa relação, todas as outras identidades conseguem sentir esse calor. A pessoa inteira fica feliz.

Os dois pontos cegos são inseparáveis. Nunca conseguimos superar inteiramente esta cegueira dupla. Ao tentarmos nos aproximar da totalidade do outro, percebemos que ela é inatingível, e sempre se transformando, como um alvo móvel.

Muitos acham que o melhor é ter alguém “que nos ame e nos aceite do jeito que somos”. Acho pouco. O caminho talvez seja amar incondicionalmente. Amar aquilo que o outro é, e aquilo que o outro ainda não é. E entender, como diria o meu grande amigo Zeca, que “a minha liberdade começa não quando termina a dos outros, mas quando começa a do outro”.