O Eu Quem Sou


Eu sou um mundo inquieto!
Orbitado pelos estímulos mais diversos,
Sou um vórtice no plano cartesiano
Dos desejos oblíquos e transversos,
Sou o físico ora etéreo, ou quântico, talvez,
Totalmente indefinível e certamente defectível,
Um porífero seco e sedento, ou um elemento
De meia-vida incertamente breve.
Quem Eu Sou?

Sou efêmero como a flor e vistoso como o fruto,
Não tão forte quanto o tronco,
Mas contundente como a coifa
Que a rocha rompe ao encalço d'água,
Sou persistente tal qual rizoma
E perspicaz como folhas fotossintéticas
Que energia em matéria convertem
E o combustível, primário à vida, vertem.
Sou Eu Quem

Flerto com as ciências e por ora
Desprezo os dogmas, para a nova teoria formular
E, então, unificar o entendimento da psique e do organismo,
Da razão e da emoção, ou do calculável e do ininteligível.
Abstenho-me das falácias intrínsecas na lógica
Aventando hipóteses sobre o Eu Quem Sou.
Eu sou o método mutável e incorruptível,
Sou a problemática intransponível do ser pensante,
Racional, talvez. Eu Sou Quem?

Sou o sujeito oculto nas entrelinhas do prefácio da existência
Sem a conclusão do que jamais fora indeterminado.
Sou sintaticamente analisável e não sistematicamente mensurável.
Brilho como milhares de nebulosas e quasares 
E me apago na singularidade de um buraco negro,
Tão singular quanto minh’alma é!
Sou a variável interveniente ao ócio dos que me cercam
E o curto pavio para o conformismo dos que me rodeiam.
Quem Sou Eu?

Sou o filho e o irmão, ou o pai e o companheiro,
A criança e o homem, ou a lei e a transgressão,
Sou o certo polvilhado pelo errado,
A obstinação carregada de enfado.
Sou o sonho impregnado pela decepção,
Sou a pergunta para todas as respostas perenes!
Não sou a crença, tampouco o discernimento.
Não sou maniqueísmo sem dualidade, ou unigênita verdade.
Quem Eu não Sou?

Não sou a certeza da dúvida, mas sim a dúvida da certeza.
Sou a indagação do que não pôde ser argüido,
O pictograma indecifrável de sinfonia audível,
Um Homo sapiens ignóbil e um passo apenas.
O fenótipo frágil de um genótipo dubiamente miscigenado,
O degrau e um elo no abstrato cladograma antropóide.
Sou um ínfimo broto na árvore filogenética do raciocínio!
Sou Eu parte de um Todo?
Ou É Tudo parte de Mim?